Capturados pelo Inusitado!

Nas últimas semanas tem-se falado muito sobre a nova febre do momento – a caça aos monstros. Criaturinhas virtuais estão capturando a atenção, tempo, energia e devoção de milhares de pessoas desde crianças até adultos e, não me arriscaria a dizer que até alguns da terceira idade.

Temos visto como a geração da tecnologia está cada vez mais apegada ao mundo virtual e cada vez mais distante do “mundo real”. Talvez, por isso, vejamos pessoas cada vez mais solitárias e vazias, que não se contentam com as trivialidades da vida, e assim estão sempre em busca de novidades.

Por isso, essas questões tornam-se de grande importância para nós e dignas da nossa reflexão. Como cristãos, pais e educadores devemos questionar e com critério julgar essa novidade e suas implicações. Sendo assim, creio que as respostas a essas perguntas poderão nos ajudar nessa tarefa: O que é o “Pokémon Go”? Qual a relação do jogo com a minha espiritualidade e a da minha família? O que fazer diante dessa realidade?

O que é o “Pokémon Go”?

Para iniciar vamos entender um pouco mais o que é o Pokémon Go. Em meio a tantos comentários e tentativas de definição (que você pode encontrar na internet sobre o assunto) a mais coerente e completa que encontrei é a de um mestrando em História Social na USP e especialista em histórias de games, Robson Bello, ele diz o seguinte[1]:

O que é, afinal, Pokémon GO? É um jogo para celulares que se utiliza da tecnologia de Realidade Expandida (RA) para transformar o “mundo real” em um videogame. A premissa da série é que um jovem treinador deve sair pelo mundo para capturar Pokémon [não há plural no termo] selvagens em uma Pokébola (um mecanismo que os hiberna e conecta sentimentalmente com seus treinadores), cuidar deles, treiná-los, combater e trocar com outros treinadores, e conquistar “estádios” que atestam sua capacidade como Mestre Pokémon.

Nos videogames tradicionais, há uma tripla dimensão de como isso é feito: o jogador controla um avatar que navega por um espaço virtual e faz a narrativa acontecer conforme prossegue em sua missão. Nos jogos de RA como Pokémon GO, o jogador é o próprio avatar e o espaço virtual é substituído pela localização por GPS no mundo real: o jogo indica onde há Pokémon (por exemplo, dentro de um parque) e ele deve ir até lá para capturá-lo – e ele o faz apontando a câmera para o local e utilizando a tela touchscreen. A narrativa como uma história contada é substituída pela introjeção da narrativa transmidiática em que o jogador é o próprio Mestre Pokémon e o mundo real passa a ter os monstrinhos “de verdade”. Alguns teóricos chamam isso de “gamificação” (ou “ludificação”) do mundo real, e estes mecanismos lúdicos têm sido pensados a serem aplicados em diversas esferas da realidade, como a educação e o trabalho (grifo meu).

É interessante que como destacado na definição acima o jogo tem despertado educadores e escolas para sua utilização no espaço da sala de aula e outros espaços do ambiente escolar. Até mesmo com a possibilidade de terem na escola um “estádio” para lutas Pokémon atraindo assim mais alunos para a escola[2].

Além dessa definição objetiva há outras afirmações acerca do jogo e suas implicações feitas por teóricos da sociologia, filosofia, religião e outros. Essa última, assim como, com outras febres e tecnologias tende a demonizar o jogo por atribuir mensagens subliminares a ele. A sociologia, por sua vez, aponta para a integração e interação de pessoas por meio do jogo, mas lamenta pelos roubos e mortes provocadas pela caça aos monstros.

Escapismo, Conformismo ou Cristianismo?

Sim, pessoas morreram por causa do jogo, mas certamente não se compara ao número de mortes e tragédias causadas por aqueles que curtem uma tarde com vento e calor para erguer uma pipa.

Negar a ação de Satanás por trás das tecnologias, jogos, mídia, internet e outros meios de comunicação é desconsiderar o que o apóstolo João disse: “o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 Jo 5.19). Certamente, podemos afirmar que o príncipe deste mundo (Jo 12.30, 31) influência homens e mulheres na realização dos seus propósitos e porque não em Pokémon Go.

Mas, devemos ter cuidado com as afirmações que fazemos acerca disso. Pois há inúmeras maneiras pelas quais temos visto governos, famílias, escolas e igrejas padecerem por influência satânica sem que se faça uma caça às bruxas. Numa postagem sobre isso um amigo publicou:

Amigos, Satanás invadiu nossas igrejas com teologia da prosperidade, confissão positiva, G12 e derivados e uma dose extrema de humanismo. Ele invadiu nossas escolas [e famílias] com ideologia de gênero e mais um pouco de humanismo. Ele invadiu nosso governo com doutrinas políticas psicopatas e ainda mais humanismo. Ele não precisa de Pokémon para dominar a mente do homem. Ele já domina há muito tempo[3] (acréscimo meu).

Sobre isso, nos escreveu o apóstolo Paulo: “nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).

Há uma tendência extrema de se viver um escapismo religioso condenando o mundo contemporâneo e se isolando num mundo fantasioso, atribuindo a Satanás toda e qualquer novidade. Por outro lado, há também um conformismo às novas tendências deste tempo sem avaliar com critério se elas edificam e promovem a glória de Cristo, sendo utilizadas apenas para a própria satisfação e “liberdade”.

Com certeza há uma realidade mais nobre e uma resposta mais segura para aqueles que querem viver piedosamente em Cristo Jesus. Assim como a igreja de Tessalônica somos exortados a “não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda a forma de mal” (1 Ts 5.20-22).

Devemos ser criteriosos em nossas escolhas, sensatos naquilo que falamos e atentos a todo tipo de engano, sem nos esquecer que nosso maior inimigo é o nosso próprio coração (cf. Pv 4.23) tendo a certeza que a Palavra de Deus, pela sua natureza e prática, nos torna aptos para julgar todas as coisas, pois…

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Tm 3.16-17).

E… “Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 6.14).

Continua…

2015-08-24-13.08.38-2
Pastor Fernando Muniz

Capelão

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